2 décadas

O ano era 1989. Exatamente 20 anos atrás. Mais precisamente no dia 04 de agosto...
Nasci. Tive uma infância que atualmente é atípica, com brincadeiras de rua: roubar bandeira, cata-vento, amarelinha, peteca, queimada, pegador, pular corda, esconde-esconde e toda sorte de brincadeiras que necessitam apenas de crianças, um lugar tranqüilo e certo afastamento tecnológico. Por vezes na fazenda, em um casarão construído pelo meu avô, com portais de madeira imensos, um quintal enorme gramado por onde corria sozinha ou acompanhada do meu cão e rolava em um discreto declive que o relevo fazia, subia na porteira, comia siriguela, pegava manga no pé e tomava banho na represa que ficava ao lado da casa. Nesse lugar, meus avôs maternos criaram seus filhos e viveram até a lamentável morte do meu avô dias antes do meu nascimento. Outras vezes, onde a maioria das brincadeiras ocorria, estava na casa dos meus avôs paternos, em uma cidadezinha perto da fazenda. Nesse vilarejo, cresci, aprendi minhas primeiras palavras, escrevi meus primeiros textos, como a já conhecida redação sobre como foram as ultimas férias e fiz amizades que perduram até hoje.
Infância. Fase que exige uma agradável leitura de quem hoje se orgulha de dizer que foi uma época memorável e importantíssima para que essa jovem se formasse. Mesmo estando sempre cercada pelos cuidados da mãe, do pai, dos avôs, nessa fase de aprendizado intensivo, foram tantos “tombos”, tantos arranhões... Ao subir nas árvores, inventar de fazer as “cozinhadinhas”, escorregar nas enxurradas que a chuva sempre provocava... Ah, os banhos de chuva, que saudades... Ao machucar, chorava, sangue escorria, prometia que não me cortaria novamente... Porém, antes mesmo que o ferimento se fechasse, já estava eu correndo com os amiguinhos novamente. Foi assim, ao aprender, andar de bicicleta, por exemplo.
Esse relato é o que define a caminhada até hoje e que seguramente aponta o caminho a ser percorrido. Mesmo com carinho, amor e dedicação, escorregões, caídas e cortes são inevitáveis. A descoberta e/ou conquista do novo é permeada por acontecimentos alegres, como correr na chuva e outros dolorosos como os arranhões no joelho ao cair com toda a força e velocidade no chão de terra batida.
Hoje parei um tempinho para notar que aquela ferida na perna, que doeu tanto, causou mudanças de planos (como ficar na margem do rio, enquanto a ferida se fechasse um pouco), é somente uma cicatriz. E quando criança, meus arranhões não impediam uma nova tentativa, o medo era vencido pela vontade de experimentar novas coisas.
Que o medo não nos impeça de tentar hoje, mesmo às vezes levando “tombos”, as feridas tornam-se apenas cicatrizes para nos lembrar qual ensinamento nos foi transmitido.
Agradeço a Deus por cada experiência vivida, pois com elas cresci e posso dizer que não fiquei apenas sentada frente a uma apresentação alheia... Eu vivi e ainda vivo...

Diariamente

Um misto de palavras não ditas, um gritante silêncio.

Promessas de Paz

Ao rever o documentário “Promessas de um novo mundo”¹, que relata o cotidiano de crianças israelenses e palestinas confesso que, além de me emocionar ao ver a realidade que diferenças políticas e religiosas impõem ao cotidiano de inocentes que não puderam, ao menos, escolher o ambiente em que vivem, comecei a refletir.
Em todas aquelas crianças, mesmo tão jovens, já está arraigado o sentimento de inimizade e, na maioria das vezes, ódio por vizinhos, não por uma questão de opção, mas porque cresceram com alguém falando que Jerusalém é dos judeus, ou Jerusalém é dos árabes... E, a intenção aqui não é opinar de quem é Jerusalém, mas sim questionar: Quanto vale ter paz? Conviver com diferentes pensamentos, atitudes, opiniões... No trabalho, no círculo social, na vida acadêmica, nos relacionamentos...
Quantas vezes criamos verdadeiros conflitos, por disputa de um terreno que poderia perfeitamente ser compartilhado... Passado, nosso histórico, que serve como justificativa para a para situações presentes e a não desistência de uma briga que não mostra nenhum vencedor. Persistir no individualismo, em desculpas para o enclausuramento em campos de refugiados, ao invés de sentar e resolver as diferenças. Resolver essas diferenças, não significa se tornar iguais, esse é o “barato” da coisa! Resolver as diferenças é solucionar nossa vida, viver em parcerias, viver em amor.
No caso do Oriente Médio, as soluções não são teoricamente simples. Existem muitos interesses envolvidos, e, simplesmente recuar com certeza não seria o ideal. Recuar não é uma atitude louvável. Há muito que se discutir...
É inegável: O fim do conflito é o mais conveniente, pois a cada dia que passa mais e mais perdas ocorrem, assim como nos conflitos das nossas vidas.
Mesmo com tantas diferenças, no final das contas todos estamos no mesmo campinho de areia (vida), correndo atrás da mesma bola (Paz). Como no encontro entre as crianças palestinas e israelenses promovido pelos diretores do documentário.

¹ Direção: Justine Arlin, Carlos Bolado e B.Z. Goldberg, 2001.